4 hábitos de profissionais bem sucedidos, e satisfeitos, no ambiente de trabalho

Quatro.

É a quantidade de vezes que tive que pagar multa por cancelar um contrato de aluguel antecipadamente, pois já não cabiam mais pessoas no escritório da Rock Content.

Um problema bom de se ter, afinal, isso significa um crescimento acelerado da empresa, que hoje, com quase 6 anos de idade, já possui mais de 350 funcionários (por outro lado, uma total incapacidade minha de prever esse crescimento, e assinar contratos mais longos que o necessário)

Mas pagar essas multas não é nada comparado com a complexidade que é criar um ambiente para centenas de pessoas com personalidades, realidades e vontades distintas, interagindo entre si, sem que eles queiram se matar no final do dia.

Ter uma cultura forte, de respeito e focada no crescimento dos colaboradores, é essencial. Como empresa nós sempre nos preocupamos com isso, e nosso código de cultura nos guia desde 2013 e foi uma das razões que chegamos até aqui.

Mas mesmo com essa base, existem dias difíceis, situações complicadas e doses de frustração. Como gestor, meu papel é conseguir ajudar o time todo a superar esses momentos e, após contratar e liderar literalmente centenas de pessoas, aprendi muito.

Como não há nenhum curso de faculdade que possua matérias do tipo “como sobreviver em um ambiente de trabalho” ou “lidando com pessoas”, acabei errando muito.

Meu principal aprendizado, ao longo desses seis anos, foi que independente do ambiente, o primeiro agente de mudança é o indivíduo. Por isso separei quatro áreas em que eu, e vários colaboradores da empresa, conseguiram mudar seus hábitos e atitudes para crescer na carreira e ter qualidade de vida.

Espero que sejam úteis! Vamos lá?

1. Produtividade não é se matar de trabalhar, muito pelo contrário.

Acordar cedo, tomar um “bulletproof coffee”, usar a técnica Pomodoro, baixar aquele app de produtividade do momento, fazer reuniões em pé, responder e-mail de madrugada, trabalhar mais e mais… PARA!

Se você acha bonito ficar 12h no escritório, é hora de repensar suas prioridades.

A cultura dos lifehacks tomou proporções assustadoras nos dias de hoje e, quase sempre, o objetivo é alcançar ela: o santo Graal do trabalhador moderno, o Nirvana profissional, aquilo que (aparentemente) todo mundo alcança, menos você: a produtividade.

Mas o que diabos é ser produtivo?

Conseguir trabalhar 14h por dia? Responder e-mail do chefe às 2h da manhã? Claro que não. Uma dica: você não vai ganhar nenhum troféu por isso, mas sua saúde vai enviar a conta logo, logo.

É aplicar os novos hacks da moda? Acordar 4h30 da manhã, tomar café com óleo de coco? Não também. Na maioria das vezes isso só serve para você fazer “bonito” nas redes sociais ou se sentir bem porque está usando algum método novo.

Não se compare com quem está o tempo todo dando dicas e conselhos de produtividade. Pessoas produtivas não estão nas redes sociais. Eu sugiro ir além: não siga nenhum perfil que só poste frases motivacionais. Não te faz bem e não te agrega em nada.

Ninguém nunca mudou de vida lendo frase motivacional.

Mas me distraí. Voltando à produtividade: um dos meus maiores aprendizados foi que produtividade é você conseguir fazer tudo que precisa, no menor tempo possível, da maneira que você achar melhor.

Produtividade é você conseguir fazer tudo que precisa, no menor tempo possível, da maneira que for melhor para você.

E isso tem uma série de implicações, que mudaram minha maneira de pensar ao longo dos anos.

Para fazer na prática

  • Nenhuma metodologia é boa se ela não funciona para você, então não perca tempo demais testando qualquer novidade por aí. Eu já vi muita gente que gasta tempo demais para conseguir economizar tempo. Sentar e trabalhar sem distrações, concentrado, ainda é o principal “lifehack” de produtividade que existe.
  • Se você consegue fazer o seu trabalho, com qualidade, em menos de 8h diárias, isso é mérito seu. Aproveite o seu tempo “extra” para estudar, criar um novo projeto na empresa ou praticar alguma habilidade. Uma hora de aprendizado hoje vale muito no futuro. Não faça horas extras.
  • Não leve trabalho para casa, simples assim. Às vezes é inevitável, claro, mas como regra geral, se desconecte dos assuntos de trabalho assim que você sair do escritório. Se tiver dificuldade em fazer isso, eu dou algumas dicas boas nesse texto.
  • Urgente e importante são coisas bem diferentes. Quase tudo que chegar para você vai parecer urgente (principalmente se vier do seu chefe). Sempre pare um pouco e pense: isso é importante? Se a resposta for não, a prioridade é baixa.

Bem, essas são as principais. No final das contas, tudo isso se resume em um conselho: trabalhe muito, trabalhe de maneira eficiente, mas não se mate de trabalhar. Até porque…

2. Saúde é o que interessa

Certo dia, em janeiro de 2017, eu fui a um self-service na Savassi, aqui perto do escritório, junto de um grupo de vendedores que tinham acabado de entrar na empresa.

Me servi, fui à balança, pesei meu prato e já estava quase na mesa quando alguém grita “Peçanha, o prato!”. Eu, sem entender direito, perguntei “que prato?”. “O seu uai, você deixou aqui na balança”.

Demorei alguns segundos para reparar que meu prato estava lá, na balança, e uma fila do restaurante olhava para mim, meio perplexos.

Corri para pegar o prato, sentei na mesa, contei o caso, rimos muito. Mas aquilo era sério.

Nesse mesmo mês eu esqueci completamente que eu fiz uma reunião com um gerente da empresa, e a marquei de novo. Esquecia de compromissos, repetia 3 vezes a mesma informação para as pessoas.

E meu estômago estava me matando, algo que nunca havia acontecido antes.

Fui ao médico e após me analisar, fazer uma endoscopia, e não encontrar nada de errado, basto uma pergunta: “quando foi a última vez que você tirou férias?”

“6 anos, doutora”

“Então tire férias o quanto antes”. Foi preciso uma recomendação médica para eu prestar atenção nisso.

Em março, fiquei 15 dias fora, completamente desconectado. Meu estômago melhorou, minha memória parou de falhar. Eu me sentia bem, com mais energia do que nunca.

E o principal: meu cansaço estava afetando a maneira como eu me relacionava com meu time, e isso me tornava um líder pior. Depois das férias, meu humor e paciência melhoraram e, com mais foco, eu também pude fazer uma avaliação honesta e clara da minha gestão, o que me ajudou a melhorar.

Ou seja, na obsessão de trabalhar muito, eu estava trabalhando pior. No final das contas, sacrificar sua saúde não vale a pena nem para a vida pessoal, nem para a profissional.

Para fazer na prática (vai parecer óbvio, mas não deixa de ser verdade)

  • Novamente: não leve o trabalho para casa, não se mate de trabalhar
  • Coma melhor. Hoje eu faço jejum intermitente, como menos e muito pouco carboidrato.
  • Faça exercícios. Você não precisa ser um atleta, mas fazer qualquer coisinha já ajuda muito. Eu vendi meu carro e só uso bicicleta (o que é um grande feito em Belo Horizonte!)
  • Medite. Esse é um hábito ao qual estou me acostumando, mas me faz bem, e olha que sou muito cético em relação a qualquer coisa mística, mas já há estudos científicos que mostram benefícios de alguns minutos por dia.

3. A importância de saber o que você não sabe

Se você conhece o Krav Magá, sabe que é uma arte marcial muito particular. Por exemplo: o “chute básico” é, literalmente, acertar os órgãos genitais do seu oponente com a maior força possível, para depois você sair correndo.

Se você está pensando que isso é algo anti-esportivo, está certíssimo. O Krav Magá não é esporte, não existem competições nem campeões.

Ela foi criada, pelo exército israelense, para um único motivo: defesa pessoal. Se a sua sobrevivência está em jogo, qualquer coisa vale.

Por causa disso o treinamento é rígido e os exames para passar de faixa são muito rigorosos.

Quando eu praticava Krav Magá meu instrutor, que demorou 15 anos (!) para se tornar faixa preta, sempre contava uma interação que teve com um aluno:

Aluno: “Benny, você está aí, há 14 anos praticando e até hoje é faixa marrom, isso é muito tempo”

Beny: “Sim, realmente é muito tempo e dedicação”

Aluno: “Pois então, eu vi que se eu fizer Krav Magá em outra federação, eu consigo a faixa preta muito mais rápido”

Beny: “Bem, se tudo que você quer é uma faixa preta, você pode comprar lá na Centauro Esportes, e você vai ter uma faixa ainda hoje. Agora, se você quer saber se defender, vai ter que treinar por 15 anos.”

Hoje em dia esse é um caso que eu conto com frequência aqui na empresa, para ilustrar uma coisa simples, mas que muita gente esquece: títulos não são nada sem conhecimento.

Títulos não valem nada sem conhecimento

Todo mundo quer ser promovido, colocar um título de “Sênior” ou “Gerente” no cargo, e não há nada de errado nisso. Mas só querer o título sem entender o que isso significa e, principalmente, o esforço necessário para chegar lá, é um erro comum.

Então, se você quer ser um profissional melhor, é hora de calçar as sandálias da humildade e focar no que importa: aquilo que você não sabe. Essa é a única maneira de você descobrir o que precisa fazer para alcançar o próximo nível, seja acompanhado de um título ou não.

A partir daí, é estudar muito, treinar muito, sempre com o foco naquilo que você não sabe.

Isso vale tanto para contribuidores individuais quanto para gestores. Ou melhor, isso é mais importante ainda para gestores. Um gestor cheio de certezas, que não acha que precisa melhorar, raramente será bom para seus liderados. Seu crescimento profissional depende muito mais das perguntas que você faz do que as respostas que você dá.

Seu crescimento profissional depende muito mais das perguntas que você faz do que as respostas que você dá.

Por exemplo, quando eu fundei a Rock, seis anos atrás, achava bonito colocar o meu cargo como o mais alto em qualquer departamento de marketing: CMO. Soa bonito, dá um ar de importância e é bom para o ego.

Ou seja, eu já abri a empresa no auge da carreira, o que dá uma sensação muito falsa de que eu tenho pouco a aprender.

Depois de conhecer muitos CMOs e interagir com profissionais muito mais experientes que eu, em empresas muito maiores, tive que engolir o orgulho e aceitar que não estou nem perto de ter o conhecimento que um verdadeiro CMO possui.

Hoje evito usar esse título, o que não é de maneira nenhuma um problema. Na verdade, agora está claro que ainda há muita coisa que eu preciso aprender para chegar lá.

Um dia no futuro eu me “promovo” novamente, mas até lá meu foco é aprender aquilo que eu sei que não sei.

Para fazer na prática

Para um liderado:

  • Aceite que existem muitas coisas que você simplesmente não sabe.
  • Não pergunte para seu líder quando você será promovido, mas sim o que ele espera de um profissional um nível acima do seu.
  • Foque em aprender tudo o que você não sabe e que te levará para um próximo passo na carreira.
  • Entenda o valor do seu trabalho, só assim você conseguirá ser promovido.

Para um líder:

  • Não caia na armadilha de achar que você não precisa melhorar só porque já é um lider. Você, mais do que ninguém, precisa ser humilde.
  • Leia livro Radical Candor (Empatia Assertiva, em português)
  • Tenha conversas francas sobre os pontos fortes e fracos de cada liderado.
  • Seja bem claro no que você espera dos seus funcionários, os ajude a encontrar respostas e o melhor caminho para se tornaremo profissionais melhores.
  • Tenha um plano de carreira bem estruturado. Nada é mais frustrante para alguém do que não saber o que precisa fazer para crescer na carreira.
  • Peça avaliações anônimas a seus funcionários. Pode doer um pouco ouvir a verdade, mas isso tem que ser usado para motivar a mudança. Criar esse hábito foi uma das coisas mais difíceis para mim em 2017, mas também a que mais me ajudou a crescer.

4. Empatia, sua arma mais importante no ambiente de trabalho

Grandes mentes discutem idéias; Mentes medianas discutem eventos; Mentes pequenas discutem pessoas. – Eleanor Roosevelt

Atire a primeira pedra (mas não no seu monitor) quem nunca ficou puto com um(a) colega de trabalho ou achou que ele(a) estava agindo ativamente para prejudicar a você ou outra pessoa .

Aí você toma raiva dessa pessoa, pois, claramente, ela tem algo contra você, certo?

Errado.

“Mas aquele vendedor está sempre me causando problemas! Olha como ele age, ele tenta vender para qualquer um, dá descontos sem poder, não preenche os campos do CRM. Claramente ele quer me prejudicar”.

Sorry, mas você não é o centro do mundo.

A grande maioria das pessoas não está nem aí para você e não tem tempo, nem motivo, para se dedicar a te prejudicar. Todo mundo tem um trabalho para entregar, prazos para cumprir, uma carreira para construir, problemas pessoais, etc.

Se eu te perguntar, agora, se você quer prejudicar alguém da sua empresa, qual será sua resposta? Imagino que seja não, acertei?

Mas mesmo assim, alguém está, nesse momento, puto com você pois claramente você está querendo atrapalhar a vida dele. Injustiça! Afinal, você não quer fazer mal a ninguém.

O problema é: nós temos o péssimo hábito de julgar as outras pessoas pela ação e a nós mesmos pela intenção.

Nosso maior erro é julgar os outros pelas suas ações e a nós mesmos pelas nossas intenções

Isso é a falta de empatia. É não entender que, por trás das ações de alguém, existem intenções e motivos.

Sem empatia seu relacionamento com colegas de trabalho será sempre negativo. Seu dia-a-dia no escritório será muito mais desagradável, você irá gastar sua energia com algo que, provavelmente, não existe.

Isso torna qualquer trabalho insuportável, faz com que você dê graças a Deus quando sai do escritório e o assunto da mesa de bar se torne falar mal de algum aspecto do seu emprego.

Que é o lugar em que você passará 40 horas por semana!

Para mim, essa é a definição de sofrimento.

E boa parte desse sofrimento pode ir embora, depende mais de você do que você imagina, basta ter empatia e não gastar energia discutindo pessoas.

Eu não sou fã de vídeos com mensagens motivacionais, mas o discurso abaixo é uma exceção, que eu recomendo muito que você veja:

Para fazer na prática

Mas ok, eu não quero ficar só no “motivacional”, falando que tudo depende da sua força de vontade, mudar o mundo, etc. Então seguem alguns princípios práticos que adotamos aqui na empresa e eu recomendo para todo mundo:

  • Feedback direto e honesto, sempre! A regra aqui na empresa é sempre levar o problema para quem pode te ajudar a resolvê-lo. Reclamar com qualquer outra pessoa é somente isso, uma reclamação, pois não ajuda em nada na solução.
  • Logo, se alguém te prejudicou de alguma maneira, vá conversar com essa pessoa, de mente aberta, para tentar entender o que a levou a isso. Isso resolve 90% dos conflitos.
  • Se for um erro, explique para a pessoa como isso te prejudicou, trate como tal e “bola pra frente”.
  • Se for um problema sistêmico, como um sistema de bonificações e incentivos que levam a esse comportamento, é hora de acionar os gestores da empresa para tentar mudar o sistema para que a empresa funcione melhor.
  • Mas, se por algum motivo, a pessoa não for cooperativa, aí sim você deve escalar o problema para o seu gestor e/ou o gestor da outra pessoa. Se isso não resolver, continue escalando, até chegar ao CEO, se for necessário.

Também não podemos ser inocentes e acreditar que não existem ambientes e colegas de trabalho realmente tóxicos. Se esse for o caso, talvez seja hora de já montar um plano de fuga.

Conclusão

Esse não é um texto que escrevi para você mudar o mundo, ou até mesmo causar uma revolução na sua empresa. Esses quatro princípios são, acima de tudo, algo individual, que me ajudaram (e outras pessoas) a terem uma relação mais positiva com o dia-a-dia do trabalho.

São mudanças essencialmente internas, mas que invariavelmente vão mudar sua percepção externa do mundo e melhorar a maneira como você lida com ele 🙂

Se você tentar seguir algum dos meus conselhos, depois me diga o resultado. Ou, se tiver suas próprias dicas, poste aqui nos comentários também!

Feliz 2019!

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