[Resenha] Console Wars: para fãs de video game e marketing

Console Wars

Console Wars, de Blake J. Harris, conta a história da batalha entre Sega e Nintendo pelo mercado norte americano de video games no início da década de 90 e já vou avisando, essa pequena análise pode ser extremamente tendenciosa pois eu sou exatamente o público-alvo desse livro: nasci na década de 80, cresci jogando video games (e nunca parei) e, de bônus, sou um profissional de marketing.

O livro começa sua história no início da década de 90, época em que a Nintendo conseguiu o feito de ressuscitar a indústria dos video games com o NES e detinha 90% do mercado americano e números impressionantes, como por exemplo representar 10% do faturamento do Wal Mart. É a partir daí que Harris começa sua história de Davi vs Golias do mundo do entretenimento digital.

Console Wars é, em geral, um bom livro sobre como a Sega conseguiu, através de um marketing agressivo, tomar o trono da Nintendo e chegar a conquistar mais de 50% do mercado de 16 Bits com o Genesis / Mega Drive, um salto em relação à geração anterior de 8 bits que foi dominada quase exclusivamente pelo NES. O Master System, da Sega, nunca decolou nos EUA. (Uma curiosidade: aqui no Brasil o Master System foi um sucesso tão grande que a Tec Toy lançou nada mais, nada menos que 45 (!!!) versões do console, sendo a última em 2011. Isso que eu chamo de não largar o osso.)

Mas agora, se você gosta de video games, marketing e nasceu entre as décadas de 80 e 90, ler o Console Wars é como abrir um álbum de memórias de velhos amigos que cresceram (e jogaram) com você na infância. Sega, Nintendo, 32x, Famicom, Genesis, Ecco, Saturn, Sonic, Acclaim, Rare, EA, Psygnosis, Konami. Basicamente, se você conhece pelo menos 70 % dessa lista de nomes, suas chances de gostar do livro aumentam consideravelmente.

O personagem principal (por assim dizer) do livro, é Tom Kalinske, ex-CEO da Mattel – e criador do He-Man! – que foi contratado em 1990 para se tornar CEO da Sega Of America (SOA) e tentar fazer com que ela encarasse a gigante Nintendo, que dominava o mercado com mão de ferro. Naquela época a Nintendo era como a Apple dos video games: demandava exclusividade nos jogos, limitava a quantidade de jogos que cada empresa podia lançar por ano, era a única autorizada a manufaturar cartuchos, cobrava royalties antecipados e ainda controlava a distribuição. Apesar de todas as práticas colocarem a Nintendo como o inimigo da história, a qualidade dos jogos e da distribuição eram extremamente altas, o que fez com que a empresa revivesse, sozinha, um mercado que havia entrado em colapso na década de 80 por causa de graves problemas de qualidade (alguém se lembra do E.T. para Atari, o pior jogo da história? Realmente traumático) e logística das empresas da época.

Partindo quase do zero, mas com a vantagem de possuir um console de 16 Bits antes da Nintendo, a SOA começou uma campanha agressiva de marketing, atacando todos os “pontos fracos” da Nintendo para ganhar mercado. Enquanto todo o marketing da Nintendo focava em crianças, a SOA se posicionou como uma empresa mais “cool”, voltada para um público mais velho, os adolescentes (lembram-se que Mortal Kombat não tinha sangue no SNES? Não foi à toa que ele vendeu muito mais no Mega Drive). As propagandas comparavam diretamente os jogos das duas empresas, sem vergonha de mencionar o adversário, com slogans como “Sega does what Nintendon’t”, ou então comparando diretamente o a lentidão do Mário com a velocidade do Sonic, entre outros.

Veja a propaganda abaixo, só para ter uma ideia. Ah, e Blast Processing, na verdade, não tinha absolutamente nada a ver com a velocidade do jogo, mas a galera do marketing da SOA achou que era um bom nome a ser usado em propagandas (e funcionou):

Mas não era só a Nintendo que atrapalhava a vida da SOA. Na verdade um dos maiores desafios de Kalinske era lidar com um adversário muito mais próximo: a Sega of Japan (SOJ – viu, não era à toa que eu não estava chamando a empresa simplesmente de Sega desde o início), que em muitos momentos pareceu apostar contra seus irmão americanos, atrapalhando seus planos e, possivelmente, fazendo com que a Sega perdesse sua liderança de mercado conquistada a duras penas.

Boa parte das disputas entre SOA e SOJ foram motivadas por diferenças culturais. A agressividade no marketing, por exemplo, demorou muito a ser aceita pelos japoneses, mas muitas vezes algumas decisões nipônicas simplesmente não faziam sentido, o que irritava profundamente Kalinske e fez com que ele perdesse membros chave de sua equipe.

Um dos piores exemplos foi quando Kalinske estava negociando o lançamento de um console em parceria com a Sony, usando a revolucionária tecnologia do CD-Rom, mas, de última hora e sem explicações, foi vetado pela SOJ. Fico até triste de pensar que quase tivemos um Sega Playstation no mercado e que, no final das contas, os planos foram cancelados. Ao invés disso a SOA foi obrigada a focar seus esforços em dois produtos da próxima geração, o 32X (tecnicamente, uma gambiarra) e o Saturn, que foi lançado em 1995. O resto é história (dica para quem não conhece video games: os dois foram um fracasso).

A partir daí foi só uma questão de tempo para que Kalinske decidisse que a SOA já não era mais a empresa que ele havia construído e gostava de trabalhar e, em 1996, ele deixou seu cargo de CEO da empresa e é também aí que o livro termina.

Como eu disse anteriormente, é uma leitura recomendável para quem gosta de livros sobre o mundo corporativo, muito recomendável para quem também gosta de marketing e imperdível para quem, além disso tudo, ainda é fã de video games (pontos de bônus se você já jogava na década de 90). Se quiser conhecer o livro, veja o resumo dele no 12Minutos.

Agora é esperar por algum novo livro que conte a história de Sony vs Nintendo.

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Console Wars
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