Selfies, celulares, e como tudo era melhor no meu tempo (só que não)

Celular na cama

Algumas semanas atrás minha timeline foi inundada de pessoas compartilhando o tal do estudo que um tal restaurante encomendou para descobrir porque as mesas estavam sempre lotadas, sendo que nada mudou no atendimento nos últimos anos. Tal estudo de tal restaurante mostrou que, na verdade, a culpa não era do restaurante, mas sim de seu clientes que tinham a “indecência” de demorar para fazer o pedido e começar a comer pois estavam focados em seus celulares.

Não tenho ideia se o Tal estudo do Tal restaurante é real, mas isso é irrelevante. O fato é que a maioria esmagadora dos compartilhamentos era acompanhada de comentários criticando “a sociedade atual” e nossa “falta de educação”.

Triste.

Triste porque isso torna visível o fato de que até hoje a postura natural das pessoas é ver o novo como algo pior, afinal, quando eu era jovem tudo era melhor. A música era melhor (mentira, esse é um erro clássico de “survivorship bias“), as coisas eram mais baratas (mentira, nosso poder de compra nunca foi tão alto), a violência era menor (mentira também) e por aí vai. Ah, mas aqueles eram os bons tempos, afinal, as pessoas conversavam umas com as outras e não  ficavam o dia inteiro no computador. Bem, aqui vai uma tirinha do XKCD, genial como sempre.

Como já diria Kahneman, o nosso “eu da experiência” é bem diferente do “eu da memória” são bem diferentes. Confundimos os fatos com as memórias que temos em relação a esses mesmos fatos, gerando grandes distorções. Pense em um bom filme com um final ruim. O que ficará na sua memória será o final e, por consequência, você irá considerar o filme ruim como um todo (memória) mesmo que durante as 2h anteriores a sua experiência tenha sido positiva.

Nada de errado aí, pois o que mais somos além de um aglomerado de emoções e memórias? O problema é não conseguir dissociar as coisas na hora de fazer um análise do cenário atual.

Voltando ao estudo do Tal restaurante, me impressiona que ninguém que eu vi tenha pensado diferente. Não vi um sequer comentário (ok, a validade estatística é extremamente questionável) que enxergava aquela situação como, por exemplo, uma oportunidade. Bem, se os frequentadores de restaurante hoje se comportam dessa maneira, como eu posso fazer um restaurante que irá ser o melhor possível para eles? Trazer a melhor experiência? Afinal, não vamos deixar de usar nossos celulares, mesmo que eles estejam acabando com nossa sociedade (que aparentemente já foi destruída por coisas perigosas como a valsa, o telefone, o cinema, o Rock’n’Roll, entre outros)

A resposta não existe ainda, pois acabei de criar as perguntas, mas quem já trabalhou com Experiência do Usuário sabe muito bem: comece pelo problema dos visitantes e crie o restaurante ideal para solucioná-lo. Não oposto. As oportunidades são gigantes! Não só no mercado de restaurantes, mas em todos os mercados. A melhor maneira de se ganhar dinheiro é resolvendo problemas dos outros.

Todos nós sofremos dessa “preguiça”, mas quando começamos a parar para pensar antes de falar/curtir/compartilhar tudo muda de figura. Boas histórias não se tornam mais verdadeiras somente por serem boas histórias, apesar de nosso cérebro idiota acreditar nisso. Entender como as coisas realmente são, ao invés de como elas parecem, é a verdadeira sabedoria.

Arrisco até sair um pouco do mundo profissional (minha zona de conforto na escrita) e digo que esse é o segredo para se tornar uma pessoa melhor. Mas não irei divagar em palavras, pois o vídeo abaixo explica isso de maneira que eu nunca conseguiria:

Então, que tal começarmos a criar oportunidades ao invés de reclamações?(E, pelo amor de Deus, vamos deixar o pau-de-selfie em paz)

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